A arte com prescrição médica no Sistema Nacional de Saúde inglês

Prefeitura de Porto Alegre mantém o programa GerAção,
parceria entre as secretarias da saúde e da cultura para a
saúde mental. (Foto: Cristine Rochol)

Baseada em evidências sobre os benefícios para a saúde, a iniciativa do Governo pretende atingir dezenas de milhares de pessoas em toda a Inglaterra.


Médicos do Reino Unido serão estimulados a prescrever atividades artísticas como teatro, leitura criativa e canto de grupo em vez de antidepressivos, por meio de um novo programa governamental. O fundo, de 4,5 milhões de libras, será dividido entre projetos com foco particular em pessoas em risco de isolamento social, que são afetadas por saúde irregular ou têm necessidades complexas. Também terá como objetivo apoiar o compartilhamento de aprendizado entre as clínicas de atendimento primário e aumentar a capacidade de os médicos se conectarem e avaliarem os serviços oferecidos por provedores voluntários e comunitários.

A prescrição dessas atividades, que também podem incluir clubes de caminhada ou jardinagem, terá como objetivo melhorar a qualidade de vida dos pacientes e reduzir a demanda por serviços do Sistema Nacional de Saúde (NHS).

"O setor voluntário e comunitário tem um papel vital a desempenhar no trabalho com o nosso sistema de saúde para fornecer o tipo de apoio que você não pode receber em sua clínica ou hospital de clínica geral local", disse Caroline Dinenage, Ministra da Assistência. “Esse novo financiamento significará que muito mais pessoas receberão apoio que observe suas necessidades holisticamente, permitindo que elas tenham uma vida mais feliz e independente. Estou ansioso para ver esses projetos colocarem seus planos em prática e dar apoio a centenas de milhares de pessoas a mais ”.

Suporte social

O programa, anunciado pelo Secretário de Saúde Matt Hancock - que foi Secretário de Cultura até o mês de julho - surge ao mesmo tempo em que uma nova pesquisa do The Times constata que 7,3 milhões de pessoas receberam pelo menos uma receita de antidepressivos no ano passado, incluindo mais de 70.000 pessoas com idade inferior a 18 anos.

Ele também coincide com um novo estudo "nacionalmente representativo" encomendado pela Aesop (Associação de Empresas Artísticas com Propósito Social, que reúne em seu site diversos programas de artes para a saúde), que conclui que dois terços dos médicos clínicos gerais acreditam que o engajamento com as artes pode contribuir significativamente para prevenir problemas de saúde, e 44% concordam que as intervenções baseadas em artes são um modo eficaz de prestação de cuidados primários.

Movimento crescente

O desenvolvimento de uma "prescrição social" é influenciado por um corpo crescente de pesquisas, incluindo descobertas recentes de que a atividade artística pode ser a solução mais eficaz para desafios como a depressão pós-natal e mais eficaz do que os programas normais de prevenção de quedas do NHS para idosos (um problema que custa mais de 2 bilhões de libras ao ano). Uma enquete realizada pelo Grupo Parlamentar Suprapartidário para as Artes, Saúde e Bem-Estar, no ano passado, concluiu que era "hora de reconhecer a poderosa contribuição que as artes podem dar à saúde e ao bem-estar".

No início deste ano, com base em um manifesto para a prescrição social de um provedor de saúde baseado em Cheshire, 27 organizações do Serviço Nacional de Saúde em Cheshire e Merseyside se comprometeram a desenvolver um plano de prescrição social. Um funcionário do NHS prometeu que seria implementado em toda a região dentro de um ano.

Desde que assumiu sua nova posição, Hancock apressou-se em deixar claro seu compromisso com a prescrição social. Recentemente, ele disse que reduzir a “prescrição excessiva de medicamentos” em favor de “abordagens como a prescrição social, que visam o bem-estar físico e mental de alguém”, era uma de suas principais prioridades.

Repercussão

A iniciativa foi bem recebida pelo presidente do Grupo Parlamentar Suprapartidário para Artes, Saúde e Bem-Estar, Ed Vaizey, que elogiou o “pensamento inovador” de Hancock no Twitter.

O setor da saúde também expressou seu apoio ao esquema. Catherine McClennan, executiva do NHS cuja Parceria de Serviços para Mulheres e Crianças tem sido fundamental no desenvolvimento do plano de prescrição social para Cheshire e Merseyside, descreveu o anúncio como uma “validação clara do nosso trabalho pioneiro ao abraçar uma variedade de recursos culturais e intervenções para melhorar a maternidade e serviços infantis ”. Ela continuou: “Isso só pode apoiar e catalisar o setor de saúde para capitalizar sobre a substancial base de evidências que reflete o valor das intervenções culturais e artísticas para a construção do bem-estar e a recuperação; além de apoiar o gerenciamento de doenças”.

Jon Develing, outro executivo sênior do NHS na região, acrescentou que parcerias mais fortes com organizações voluntárias são fundamentais para oferecer um “NHS sustentável”.

O executivo-chefe da instituição não-governamental Arts & Mind (que proporciona vivências em museus para pessoas com demência e seus cuidadores), Gavin Clayton, destacou que o anúncio foi uma "mudança radical em termos de investimento em modelos preventivos de prática". Mas ele expressou cautela sobre o potencial de um único fundo para abordar desafios estruturais. "Apenas gostaria de saber como esse recurso vai criar uma mudança estrutural para as organizações do setor voluntário, em parceria com o setor de saúde", acrescentou.

Em Porto Alegre, um exemplo de uso das artes em benefício da saúde é o projeto A memória do Coração, do Hospital São Lucas da PUC-RS, que busca integrar a música no tratamento para Alzheimer.

Texto traduzido e adaptado pelo Observatório da Cultura, do original em inglês de Christy Romer, para o site Arts Professional

Missão: fazer diferença. O caso do Museu de Santa Cruz, CA (EUA)

O blog apresenta, uma vez mais, conteúdo traduzido do site inglês Arts Professional, especialmente para nossos leitores. O texto  original é de Sara Lock, a respeito de uma conferência de Nina Simon, autora do livro recentemente lançado The Art of Relevance. (alguns trechos do livro podem ser lidos on-line)

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Como podem as organizações artísticas certificar-se de que são importantes para seu público e seus patrocinadores?

Em 2011, Nina Simon tornou-se Diretora Executiva do Santa Cruz Museum of Art & History (MAH) e embarcou em uma "missão para fazer diferença". A organização estava à beira da extinção por desimportância. Não tinha dinheiro e falava-se em fechar suas portas.
No atual contexto de financiamento, este cenário pode soar bem familiar, mas chamou a atenção de Nina para um problema ainda maior. A razão pela qual não havia dinheiro era que não havia um número suficiente de pessoas na comunidade a quem o MAH realmente importasse.
Se nossas organizações e nosso trabalho devem fazer diferença para as pessoas a ponto de atingirmos a sustentabilidade, então temos de compreender o nosso entorno. Embarcar em uma "missão para fazer diferença" salvou o MAH da extinção. A história da transformação do museu na instituição próspera que é hoje pode servir tanto como uma inspiração quanto como um alerta. É um lembrete do que pode acontecer quando perdemos de vista o que é importante para as nossas comunidades e nossos apoiadores.
No setor cultural, temos a felicidade de sermos regularmente lembrados de que somos importantes para as pessoas. Cada ingresso comprado, cada visita feita e cada crítica favorável são um endosso ao nosso trabalho. Mas e aquelas pessoas a quem nós não ainda não importamos?

Assíduos x Ausentes

As barreiras entre fiéis seguidores de nossa organização e pessoas para quem ela ainda não importa é lindamente ilustrada na definição de Nina para a relevância como uma chave que traduz significados. Ela não é o próprio significado, mas um ponto de conexão que abre portas para que as pessoas possam ter uma experiência poderosa.
Nossos frequentadores assíduos, aqueles que amam as artes, tem as chaves de nossas portas. A chave gira na fechadura e lhes permite entrar em nossas organizações sem dificuldades. Eles conhecem nosso trabalho, estão interessados ​​no que fazemos e sabem como se programar, por isso é fácil para eles participarem.
Porém, do lado de fora de nossas portas, há muitas outras pessoas que sequer vêem esas portas. Eles não possuem uma chave ou qualquer forma de imaginar que aquilo que está aqui dentro pode ser de algum valor para eles. Se você ama as artes e tem essas chaves, é fácil esquecer que é necessário tê-las para entrar. Mas se você não tem isso, é impossível atravessar aquelas portas.
A definição de relevância de Nina provém de dois critérios que, segundo sugerem os pesquisadores linguísticos Deirdre Wilson e Dan Sperber, tornam algo relevante: efeito cognitivo positivo e esforço. Para que algo seja relevante para você, esse algo deve fornecer informações significativas, as quais você pode acessar com mínimo esforço.
Se nossas organizações e nosso trabalho devem fazer diferença para as pessoas a ponto de atingirmos a sustentabilidade, então temos de compreender as pessoas que estão de fora. Precisamos saber o que elas valorizam, o que é significativo para eles e o que podemos mudar na forma como fazemos as coisas para proporcionar-lhes uma experiência sem esforço.

Mudanças na estratégia e propósito

Nos últimos cinco anos, o MAH viu quadruplicar o número de visitantes e mais do que duplicou o seu quadro de pessoal e orçamento. Nina atribui esse progresso às mudanças de estratégia e de propósito. Ele começou a fazer do museu um espaço de encontro social, e a olhar para a arte e a história em busca de ideias e narrativas para serem encontradas, desafiadas e usadas para conectar comunidades. Ela focou seu trabalho na comunidade e naquilo que era importante para a população local, começando a articular o impacto que a instituição pretendia obter através da cultura.
As exposições de arte e a programação que o MAH vinha fazendo eram importantes para um pequeno grupo, mas não tinham importância suficiente para um número suficiente de pessoas. A ideia de usar a criatividade e cultura para construir uma comunidade mais forte e conectada conseguiu motivar a comunidade, que foi se envolvendo, participando e acabou apoiando o museu, inclusive financeiramente.
Para acolher os "excluídos", o MAH também mudou sua programação e abriu novas portas, que eram relevantes e visíveis para eles. Foram organizados eventos em bares e ambientes familiares, que atraíam as pessoas e diminuiam o esforço percebido em participar.

Iniciando a sua própria missão para fazer diferença

A história do MAH não é um modelo para alcançar a relevância, mas existem cinco passos fundamentais que podem ser tomadas a partir de sua trajetória:
  1. Certifique-se a sua organização tem clareza sobre com quem ela se preocupa mais - quem são os excluídos a quem você quer realmente atingir?
  2. Torne-se um convidado nessa comunidade - ingressando como aprendiz e explorador, não para vender algo, mas por um interesse genuíno naquilo que importa às pessoas.
  3. Faça perguntas honestos à sua organização. O que não está funcionando? O que precisamos mudar?
  4. Esteja preparado para reformular sua programação e abrir novas portas, que sejam relevantes, visíveis e atraentes para os excluídos com os quais você se preocupa.
  5. Prepare-se para ter diálogos difíceis com frequentadores assíduos, que podem se sentir ameaçados ou simplesmente não concordar com as mudanças.
Algumas dessas etapas podem ser desafiadoras. Ao assumir seu papel de liderança na comunidade, pode surgir a impressão de se está abrindo mão do controle artístico. As mudanças podem acarretar o risco de afastar os frequentadores habituais. Mas se a alternativa é acabar onde começou o MAH, à beira da extinção por não fazer diferença, então talvez esse seja um risco que vale a pena correr.

Políticas culturais são afetadas pela escassez de estudos em profundidade sobre seu impacto social

Balanço dos resultados de pesquisas sobre o impacto social da cultura e do esporte é positivo, mas encontra deficiências.


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Um estudo patrocinado pelo programa Culture and Sport Evidence (CASE), do Reino Unido, publicado em 2015, realizou uma revisão da literatura científica sobre o impacto social da cultura e dos esportes. Seus principais focos foram sobre os efeitos na saúde, na redução da criminalidade, na educação e no capital social da população. Denominado The Social Impacts of Engagement with Culture and Sport, o documento (disponível apenas em inglês) revela que os esportes levam boa vantagem sobre as artes, em termos da quantidade e qualidade de evidências descritas sobre esses impactos, descritas até o momento.
Contudo, as evidências também associam de forma positiva a participação nas artes com os efeitos pesquisados. No que tange à saúde, os benefícios comprovados atingem tanto pessoas doentes como as saudáveis, inclusive no campo da saúde mental, com destaque para os efeitos da música.
Em relação à criminalidade, a maioria das pesquisas está focada no efeito de programas artísticos para pessoas condenadas anteriormente, com resultados comprovados na autoestima, habilidades de comunicação e trabalho em equipe, fatores importantes de prevenção da reincidência. Contudo, são mais raras as evidências de efetiva redução da criminalidade como efeito da participação nas artes.
As melhores evidências de impacto social das artes dizem respeito ao incremento do capital social, com destaque para um grande número de pesquisas voltadas para a população jovem. Esses estudos indicam que a participação em atividades artísticas potencializa melhores relações sociais, coesão e maior sensação de empoderamento e segurança nas comunidades. A maior parte associa também as artes como a inclusão social, sugerindo que o desenvolvimento de uma cidadania cultural favorece um engajamento mais amplo na comunidade.
Já os resultados relativos à educação são positivos quanto a aspectos como a autoestima e uma melhor integração entre corpo docente, estudantes e familiares, embora sejam menos documentados os efeitos sobre o desempenho escolar propriamente dito.
São mais escassas os estudos a respeito da influência do Patrimônio Cultural e dos setores de museus, bibliotecas e arquivos. Um dos mais evidentes refere-se ao trabalho de voluntários (prática comum nestes setores, no Reino Unido). Outros apontam para um maior senso de pertencimento à comunidade e incremento do capital social.

Detalhe do Monumento a Júlio de Castilhos, na Praça da Matriz em Porto
Alegre. Foto de divulgação do projeto Passeios Pela Arte da SMC
O Culture and Sport Evidence (CASE) é um programa de pesquisa estratégica, liderado pelo Department for Culture, Media and the Sports (DCMS, equivalente a um Ministério), em colaboração com o Arts Council England, o English Heritage e o Sport England (as duas últimas, organizações não-governamentais), dedicado a reunir evidências oriundas de diversos campos de pesquisa empírica, com a finalidade de subsidiar as políticas para a cultura e os esportes. Sua base de dados reúne e torna acessíveis mais de 12 mil estudos.

(com informações do site Arts Professional)