Chamuscados, porém vivos

No último dia 6 de julho, o Mercado Público de Porto Alegre sofreu um incêndio de grandes proporções. Embora felizmente não haja registro de vítimas e o fogo tenha atingido apenas a metade do segundo pavimento, o Memorial do Mercado, situado nas lojas 37-38-39, onde funcionava o Observatório da Cultura desde sua instalação, em abril de 2010; e a Ilhota Livros, ponto de venda dos nossos produtos, reaberta em 2011, foram totalmente destruídos.

Queremos aqui expressar nossa solidariedade para com os comerciantes e trabalhadores do Mercado, afetados em seu ganha-pão, e agradecer a todas as manifestações de carinho recebidas desde então (algumas das quais se fizeram acompanhar de doações de livros, que irão recompor a perdida biblioteca, que continha quase 200 livros sobre políticas e gestão cultural). Um agradecimento especial ao Secretário Roque Jacoby, que nos deu todo o apoio para podermos seguir trabalhando, sem maiores percalços.


Nosso novo endereço: Av. Independência 453 (Casa Torelly). O telefone 3225-0793 segue valendo, assim como nosso endereço eletrônico observatorio@smc.prefpoa.com.br. O Ramal 3289-8258 permanece desativado por enquanto.

Impressões de Bogotá: visita a uma biblioteca pública

Sempre que viajo a um país americano de fala hispânica, me impressiona em alguma medida a cultura de sua população, entendida aqui cultura como instrução e ilustração. Essa impressão contrasta cada vez mais com a cobertura jornalística dos nossos meios de comunicação, a qual, além de escassa, frequentemente apresenta nossos vizinhos como uns índios supersticiosos, facilmente guiados por populistas rumo a modelos políticos e econômicos ultrapassados, nos quais não nos é conveniente inspirar, como "país do futuro" que somos.
Nossas escolas, pela pouca ênfase na história, geografia e literatura desses povos, não nos previnem contra essa falsa impressão, que naturalmente joga contra qualquer iniciativa de integração real com esses povos que compartilham tanto conosco. Integração que não coincide com o interesse das maiores potências mundiais, que no plano econômico tem preferido assinar tratados bilaterais de livre comércio. E assim avança o Mercosul, a passos de tartaruga. Mas o que isso tem a ver com política cultural?
Entre as primeiras políticas culturais em que se engajaram nossas nações americanas independentes, lusas ou hispanas, estava a instrução pública. Após expulsar os exércitos do conquistador e delimitar fronteiras, percebeu-se que criar uma Nação requeria "civilizar" sua população (i.e. torná-los cidadãos), começando por ler e escrever no idioma oficial até a legitimação das instituições do Estado. Isso era tão mais importante quanto maior o território.
Porém o Brasil saiu em enorme desvantagem nessa luta. Basta dizer que em 1920, quando criamos nossa primeira universidade, nossos vizinhos hispanos, tendo iniciado no século XVI, já contavam com 20 (nos EUA eram 78).
O projeto é do arquiteto colombiano Rogelio Salgado
Penso nisso ao visitar a assombrosa Biblioteca Virgílio Barco. Mais que uma biblioteca, um verdadeiro centro cultural com um belíssimo projeto arquitetônico, dentro do principal Parque de Bogotá. Integra a chamada Biblored, rede de bibliotecas municipais com outras três similares, quatro menores e outras nove "de bairro". Além de sua localização ser descentralizada, elas atendem nos finais de semana, e até as 8 da noite em dias úteis, afinal foram pensadas para atender à população de menor poder aquisitivo. Sua construção foi iniciada nos anos 90, num desesperado esforço por retomar a civilização das mãos do tráfico e da guerrilha. (Em Medellín, segunda maior cidade colombiana, há uma rede semelhante, ainda sendo ampliada atualmente.)
É claro que me sinto aliviado de não termos guerrilha no Brasil, embora o tráfico... Segue-se ao alívio uma certa vergonha, ao pensar nas nossas bibliotecas, mas afinal sempre temos a desculpa de que aqui no sul do Brasil foi justo onde a civilização tardou mais a chegar. Depois fico tentando lembrar se em algum lugar do Brasil temos bibliotecas como essa - salvo naturalmente a Biblioteca Nacional, patrimônio nacional, no Rio de Janeiro. Temos ainda as de Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e...
Ao receber-nos no local, a Secretaria de Cultura, Recreação e Esportes de Bogotá proporcionou algumas atrações artísticas, culminando com uma mini-escola de samba. Lembro enfim, para meu consolo, que Porto Alegre está construindo um sambódromo, enfrentando pela primeira vez o desafio de implementar um equipamento cultural na periferia da cidade.

Relatório da Economia Criativa 2010 traduzido para o Português

O Relatório da Economia Criativa 2010 (Creative Economy Report 2010) da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) está disponível para consulta e download no portal Observatório Brasileiro da Economia Criativa.

Inglaterra: relatório destaca a importância econômica das artes

Relatório do Arts Council England (ACE) visa oferecer argumentos econômicos para subsidiar decisões governamentais sobre cortes no orçamento.
A cultura e as artes geram 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB), valor quatro vezes maior do que o gasto público no setor, segundo o novo relatório do Centro de Pesquisa em Economia e Negócios (CEBR). O volume de negócios total - abrangendo música, teatro, dança, literatura, artes visuais e artes combinadas - alcançou R$ 12,4 bilhões de libras (R$ 38,5 bi) em 2011. O valor é 3,5% inferior ao que precedeu a chegada da recessão, em 2008. Os rendimentos do trabalho constituem a maior parcela da receita num setor que emprega 110 mil pessoas, com salário médio 5% superior à média do Reino Unido - cerca de £ 26 mil (R$ 80,8 mil) anuais. Além disso, a cultura e as artes constituem o núcleo das chamadas indústrias criativas, cuja contribuição ao PIB do Reino Unido é calculada em torno de 10%. Outra estimativa refere-se ao valor injetado pelos  turistas estrangeiros em atividades culturais no país, cerca de £ 850 milhões (R$ 2,6 bilhões).
O documento "A contribuição das artes e da cultura para a economia nacional" (em inglês), foi encomendado pelo ACE e pelo Conselho Nacional de Diretores de Museus, para fornecer uma estimativa da contribuição direta e indireta das artes e da cultura na economia. Publicado antes da revisão de gastos do governo, prevista para o próximo mês, a análise do CEBR utiliza uma metodologia reconhecida por economistas e aplicada regularmente pelo Instituto Nacional de Estatística do Reino Unido.
O relatório afirma ainda que a educação artística, ao melhorar as habilidades sociais e comunicativas, amplia as oportunidades de trabalho para jovens que ficam na escola para além dos 16 anos.

Fonte: http://www.artsprofessional.co.uk, em tradução livre do Observatório da Cultura

Unifra realizou Painel sobre Transformação Criativa nas Cidades em Santa Maria

Na última sexta-feira, tivemos oportunidade de conversar rapidamente com o colombiano Jorge Melguizo e o espanhol Roberto Gómez de la Iglesia. De passagem por Porto Alegre, eles voltavam de Santa Maria, onde estiveram a convite do Centro Universitário Franciscano para um painel intitulado Cultura e Transformação Criativa nas Cidades. O objetivo do evento foi "propor um novo paradigma em que a cultura e a educação são tratadas como prioridade para o desenvolvimento da sociedade". Ainda cansados da viagem, os convidados louvaram a organização do evento, que foi prestigiado por um um público numeroso, interessado e representativo da sociedade local. Esperamos que num futuro próximo o público de Porto Alegre possa ouvir o que eles tem a dizer sobre as relações entre cultura e desenvolvimento.

Jorge Melguizo (Medellín, Colômbia) é jornalista, comunicador social e gestor cultural. Foi Secretário de Desenvolvimento Social de Medellín, onde contribuiu para a redução da violência urbana, fundamentando seu trabalho em ações criativas voltadas a educação pública e cultura. Integra o Conselho Diretor da Cátedra Medellín-Barcelona, projeto de cooperação internacional da Fundação Kreanta.

Roberto Gómez de la Iglesia (Bilbao - Espanha), é diretor da c2+i, empresa especializada em Cultura, Comunicação e Inovação. Dirige, atualmente, o projeto Conexiones Improbables, que é parte do projeto europeu Creative Clash: Transforming organizations with the arts e promove a interação entre artes e pensamento para a transformação de organizações pela ótica da responsabilidade social e da inovação.